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Meus textos, Daddy Mallagoli
 


Primavera

Meu coração dispara, o estômago gela e cada segundo é o equivalente a uma hora e meia sentada de frente pra parede. Nesses mesmos segundos longos, tento pensar em todo mundo que conheço, em todos os grupos, de todas as partes, claro que sem sucesso – quantas pessoas cada pessoa conhece? E então vem primeiro a família, os mais velhos, depois os jovens que se arriscam mais, e aí as pessoas que convivem comigo, os amigos mais antigos, os que moram aqui perto e os que moram em mim, amigos de amigos, parentes dos meus pais que nem sei quem são, colegas de escola das minhas irmãs, o dono do mercado da esquina, minha ex-chefe, todos os meus ex-chefes e os meros conhecidos. Crianças nunca passam pela minha cabeça.

É muito raro o telefone em casa tocar de madrugada. Meu sono é leve, e em questão de dois longos segundos, que são o mesmo que três absurdas horas nesse momento, é nessas pessoas todas que penso. Talvez nem sempre nessa ordem.

É como seu eu tentasse me preparar para receber a notícia de quem morreu.

Dessa vez foi Ricardo, 30 e poucos anos, trompetista, com quem convivi pouco. Cantei com ele algumas vezes, e algumas vezes ele veio a churrascos em casa com a noiva, gente boa também. Sempre rindo, simpático, loiro, meio gordinho, bonachão.

O difícil é aceitar que deram cinco tiros nesse cara, um na cabeça. Não combina. Assalto em um bar, ao lado da casa dele. Se a morte já é difícil de entender, pelo menos pra mim, em uma situação totalmente esdrúxula e sem sentido como essa, é ainda mais nebulosa. Ricardo não tocará mais trompete, não virá aos churrascos em casa, não fará mais piadas e não se casará com a noiva porque dois caras resolveram levar os trocos de um bar. É tão banal que soa a piada.

Apesar de todas as injustiças aí implícitas, as econômicas e as sociais, e apesar da revolta e da tristeza, e da dificuldade em assimilar que isso realmente aconteceu, e ainda da sensação de impotência e perda, tudo o que consigo pensar é que a última estação que Ricardo viveu foi o inverno, a minha preferida. Mas que o impediu de ver as flores que a primavera começa agora a trazer.

As flores do velório de Ricardo foram crescidas no inverno.



Escrito por Daddy às 12h47
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Pão com manteiga

Estava indo pra casa ontem, de metrô, hora do rush, lo-ta-do. Ao descer as escadas para a plataforma, ouço duas mulheres conversando atrás de mim, em um momento que deveria ser pessoal e íntimo delas, mas que se tornou coletivo devido ao povo trabalhador desse País que sai da labuta todo mundo no mesmo horário junto de segunda a sexta no melhor estilo “todo-dia-ela-faz-tudo-sempre-igual”.

“A gente deve se afastar de quem faz mal pra gente.” Foi essa a máxima. A frase foi dita alta, em um momento que, sei lá como, estava meio silenciosa a estação, como acontece com o Chaves durante a aula do professor Girafális. Toda a escadaria ouviu. O silêncio continuou, e fiquei pensando se estavam todos refletindo sobre a sábia frase. Acho que não.

Entro no trem. Uma mulher também entra, jovem, bastante arrumada com chapinha e batom, com uma bunda enorme e uma calça de funk carioca. Não tinha como não olhar, todos olharam. E então na estação seguinte entra um moço bonito, moderninho, jovem, barba do Los Hermanos, lendo Kafka(!) – talvez até no original? Ui! –, olha rapidamente para ela, e continua lendo. Trem anda. Trem pára. Mocinho que conduz o trem grita para sair de frente da porta. A moça da bunda grande resolve sair, anda dois passos e todo mundo olha de novo. Aí o rapaz moderno e intelectual, que deve ouvir apenas música francesa, acordar às 5h da manhã para ver o sol nascer, plantar temperos no quintal de casa e descer a Augusta na madrugada de segunda pra terça pra beber vinho, olhou de novo, e bastante. Dessa vez, resolveu não tirar o olho, a ponto de todos em volta se sentirem desconfortáveis. Menos a moça da bunda, é claro. Ele olhou tanto, que fechou o livro contra o peito, Kafka foi vencido, e nesse momento a aliança de noivado dele brilhou.

Resolvi eu andar e sair daquele cenário. Não teria mais novidade alguma lá. Paro em pé entre dois bancos e vejo uma moça sentada digitando no celular. Tiro os olhos. Olho para fora, tudo preto. Túnel, túnel, túnel. Bem, difícil resistir. Volto os olhos; o celular dela tinha letras garrafais. Ela segurando o aparelho, com uma mensagem parada no meio, o cursor dele piscando, esperando ela se decidir: “Dri, parabéns! Felicidades, saúde, alegrias e”. E mais nada. Cursor piscando. A mulher olhava para o telefone e não digitava nada. E o que mais você pode desejar para uma pessoa que aniversaria, e que já deve ter recebido dezenas de mensagens parecidas com aquela, e que você quer o bem, a ponto de mandar um texto, mas não quer tão bem assim a ponto de querer vê-la e abraçá-la e comemorar com ela, ou porque nem é tão próxima e só está escrevendo para fazer o social mesmo, ou porque não dá tempo, ou porque ela está longe, ou você está longe ou... Agora é o meu cursor que vejo piscando.

E aí, terminando minha viagem, pensei em como a vida é totalmente igual para absolutamente todo mundo.



Escrito por Daddy às 21h42
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Alívio na desgraça alheia

Clico em ‘receber’ e as mensagens começam a despencar na tela do computador. Enquanto vão entrando, vou lendo os nomes dos remetentes rapidamente, pra já separar o que é importante e deve ser lido do que é spam ou piada, e que não precisa da minha atenção agora, que estou com pressa.

 

O nome dela quase que salta da tela. ‘Vivian Cristine Salva’. Sinto um arrepio, um misto de tristeza, culpa e aflição. Ela me escreveu. Minha prima amiga, minha quase-irmã, me escreveu, está falando comigo antes de eu falar com ela. Menos de um mês depois do pai dela falecer, meu tio querido, ela está falando comigo antes que eu tivesse coragem e força para falar com ela.

 

Não liguei e não escrevi antes porque não consegui. Ainda não entendi a morte de meu tio, tão rápida, parecendo não ter sentido. Vou voltar ao Brasil e ele não estará lá. Cada vez que penso na minha prima, nos seus irmãos, na mãe dela, choro sem parar. Copiosamente, como dizem os letrados. Bonito isso, ‘copiosamente’. Uma palavra tão diferente e ímpar, e que se explica tão bem. E às vezes acordo chorando copiosamente também. Acho que tenho sonhado com ele.

 

E agora isso, uma mensagem de e-mail dela pra mim. Que vergonha! Deveria tanto ser o contrário. Deveria tanto ser eu a escrever com carinho e cumplicidade, dizendo o quanto sinto e ainda não acredito, o quanto queria estar perto deles todos nesse momento.

 

Mas no segundo seguinte, leio o assunto: ‘Apoio às vítimas das chuvas em Santa Catarina’. Clico na mensagem. É um pedido de ajuda, um spam de certa forma, para as vítimas das chuvas em Santa Catarina, exatamente como dizia o assunto.

 

E ao ler o quanto aquelas pessoas precisam de ajuda, e de que forma eu e todos poderiam ajudar enviando dinheiro ou alimentos, eu sinto um alívio sem fim. Ainda que minha prima Vivian e possivelmente seus irmãos e mãe precisem também da minha ajuda, ela, na sua simplicidade e generosidade, me escreve pedindo ajuda a outros, desconhecidos.

 

Eu só consigo sentir alívio. Ainda que diante da desgraça alheia, sem querer, mas sinto. E percebo então o quanto sou pequena e tenho tanto a aprender com ela, tão maior do que eu.



Escrito por Daddy às 18h58
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Tia Lila

Bom, esse talvez seja um tema bem chato. Eu nunca tive que encarar a morte de ninguém próximo, até que minha tia morreu, quando eu tinha 25 anos. Merda! Quem falou que era hora?

 

Tia Lila. Li-la, a sílaba forte é na primeira sílaba.

 

Porque meus pais se separaram, eu fiquei 11 anos sem falar com a ‘família-do-lado-de-lá’. Então, me lembro de poucas coisas dela – ela era da família dele. Me lembro de brincar no piano na casa da minha avó, numa sala grande, e ela vir atrás, brincar também, rindo. Ela tocava muito bem o piano, era professora disso.

 

Lembro de comer um pacote inteiro de amendoim na sala dela, à noite, vendo TV, quando meus pais saíram e me deixaram lá. Era um casa que tinha escadas enormes pra chegar nela. Eu comi demais. E vomitei... Na sala, no cobertor, como nunca! Lembro dela me levar até o chuveiro, eu passando muito mal, o chuveiro ligado, e ela me segurando e me ajudando. Deus, eu tinha o quê? Cinco anos? É, cinco anos... Nem foi álcool, ora veja só... Foi só amendoim, mesmo. Foi o meu grande primeiro porre, talvez. Minha mãe chegou no outro dia, me lembro dela contando tudo – ‘puxa, ela comeu um pacote inteiro de amendoim!’. É, eu não tenho muito limite. O amendoim estava bom, então eu comi. T-u-d-o! Ela, me falou – ‘querida, não come tudo’. Acho que foi a primeira vez que me lembro de vomitar de verdade, com dor. Quem nunca fez?

 

No quarto, ela tinha um porta-jóias com uma bailarina no centro. Quando a gente abria, a bailarina rodava e rodava e rodava. Com uma música bonita no fundo. Eu ficaria bem tonta a rodar tanto. Mas ela, não. A bailarina segurava a onda, e rodava, linda, reta, esbelta, com sua roupa branca. Eu ficava lá, por horas e horas a observar. Na mesma penteadeira, minha tia tinha um batom que acho que era de criança, ou para criança, sabor morango. Nossa, era realmente sabor morango! Eu mordi! Era de morango, pode acreditar! A primeira filha dela, a Liane, nem tinha nascido ainda, e eu já estava mastigando batom sabor morango no quarto da mãe dela. O batom da tia Lila...

 

Mas aí, os adultos decidiram que eles é que decidiam. E só fizeram porcaria. Então, por culpa de todo mundo, fiquei 11 anos sem ver minha tia.

 

Quando a encontrei de novo, eu já tinha mais de 20 anos, e há muito tinha parado de comer batons. Também não vomitava apenas por causa de amendoins. Mas isso não importa: o sorriso dela era o mesmo, ou maior. Ela era leve, solta, continuava brincalhona. Hoje fico m perguntando por que não pedi a ela que me ensinasse o piano. Bom, não pensei rápido. Ou o mundo girou rápido demais.

 

Batida de morango. Foi isso mesmo que ela pediu no Pescador, boteco da zona norte de São Paulo. Botecão atrás do presídio. Estávamos eu, ela, Leandro e Jorge. Foi a última vez que eu a vi. Como é que eu ia saber? A gente era recém-amiga de novo. Eu pedi uma cerveja, que é o que gosto mais, e ela pediu a batida de morango. Em dois minutos, a batida subiu, ela olhou pra mim e disse – ‘nossa, já estou bêbada!’. E ela ria bem baixinho, toda vermelha, e de leve. Talvez, estivesse mesmo bêbada. Talvez, só estivesse relaxada, como há muito não estivesse.

 

E ela relaxou. Tanto e tanto e tanto que ela não voltou mais... É assim que prefiro pensar. Que ela descansou a um ponto que nós, pessoas vivas, nos tornamos cansativas pra ela. E que ela achou algo bem legal lá, e resolveu não voltar.

 

Eu não sei se consigo expressar o amor que sinto pelas pessoas, quando sinto.

Só queria deixar bem claro que sou um pouco dela. Ou muito, segundo diz minha vó. Nossa, a gente é bem parecida – já olhei fotos dela achando que era eu... É, eu sou bastante dela, ou ela está em mim.

 

O marido dela, que lhe deu dois filhos belíssimos que eu amo, era o melhor amigo de meu pai, quando eram jovens. Claro, tudo mudou, mas isso não importa. O que importa é que meu pai nunca mais quis cantar esta música comigo, nos churrascos da família:

 

A irmã do meu melhor amigo
Renato e Seus Blue Caps
Não entendo porque tudo se acabou
Eu seria bem feliz ao lado teu
És a única irmã
Do melhor amigo meu
Na primeira vez que fui em sua casa
Era só pra encontrar o seu irmão
Mas os meus olhos te olharam
E gamou meu coração
Fui o seu primeiro namorado
Tive tanto, tanto cuidado
Pra você confiar em mim
Mas você pensou
Que eu fosse, tão ruim
Hoje em sua casa eu não vou mais
Meu caminho tão sozinho, agora eu sigo
Pois até o seu irmão
Não quer mais ser meu amigo

Escrito por Daddy às 20h19
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SaudadeS - ou - De como a distância não importa

Vivendo longe do lugar onde nasci e fui criada, uma das coisas que aprendi é achar nas pessoas que vejo por aí traços e semelhanças das pessoas que amo.

 

Esta semana, por exemplo, vi os olhos do meu tio Márcio num ônibus. Atrás dos mesmos óculos, inclusive. Vejo as mãos do Júnior e do Zé Roberto, meus guitarristas preferidos e queridos, em cada guitarra sendo tocada nesta cidade. Meu primo Bruno está em cada baterista. Encontro sempre a calma da minha irmã Daisy nas pessoas passeando sem pressa e que às vezes atrapalham meu caminho, e a energia da Diany nas manhãs de trens lotados com gente tão ocupada que às vezes me atropela.

 

Já vi os cachos dos cabelos da Margarete em uma festa em um bar no centro, e a Mamé dançando livre e leve, como sempre, com um grupo na mesma noite. O meu cunhado Régis é a cara de um aluno meu, até o jeito de falar. O sorriso da Andreza, a voz alta da Stela, o brinde com cerveja gelada do Américo na mesa 39 do bar do Seu Berinjela, o Tatu irritantemente me chamando de ‘Daddy Lilian’ e me perguntando se já revisei os textos para ele porque o Moendas nos espera... Está tudo aqui comigo, me acompanhando.

 

Todas as garrafas de Coca-Cola sempre vêm com o Luciano, e a Vivi rindo agudo e alto logo atrás. A mãe dela, minha tia Leza, talvez seja a pessoa que eu mais veja diariamente – o cabelo louro, os olhos azuis espremidos, a maquiagem forte e bonita, tudo isso está em cada inglesa que circula nesta cidade (tia, você é mais européia do que imagina!). Enrico e Vininho estão simplesmente em to-das-as-cri-an-ças!

 

A austeridade do Pedro e seus cavalinhos de chumbo em cada loja de brinquedos, a desencanação psicodélica e irresponsável do meu pai nos sonhadores das praças e na faixa de pedestres de Abbey Road, até os dentes encavalados do Ronaldo eu já vi. Porque nessas horas, não interessa muito quem foi amigo ou amante, interessa a história que você conseguiu escrever e a forma como essas pessoas te acompanham, ainda que não te acompanhem mais.

 

Vejo a minha mãe o tempo todo, nos cabelos vermelhos escorridos que voam com o vento em dias de sol, nas sardas, nos grupos de jovem carregando violão pra cima e pra baixo. Vejo minha mãe quando vou sair de casa e a Bel me manda levar casaco, quando a Silvia me avisava que tinha comida pra mim na geladeira ou quando o Rodrigo tenta dar um jeito nos meus sapatos novos porque eles machucam meus pés. Vejo na Paula, quando me liga perguntando como estão as coisas com voz de preocupada, e na bronca que me dá quando eu digo como realmente as coisas estão! Ou no Felipe, que com toda calma e paciência do mundo me ajuda a carregar meus porres. Vejo minha mãe todos os dias, quando tiro meu violão da capa, afino e começo mais uma aula, com tantas e tantas músicas que ela me ensinou a tocar e a cantar. Ouça a voz dela na minha.

 

Isso me lembra da teoria que tenho, ou que alguém me contou, de que na verdade as pessoas são feitas em ‘formas’, como as de bolo. Existem grupos, com determinadas características, traços, estilos e personalidade, só que seus integrantes não ficam juntos, mas espalhados pelo mundo. Então eu passo meus dias tentando identificar integrantes dos grupos que conheço, e me maravilhando com os grupos novos que cruzam meu caminho.

 

Isso me faz pensar que tenho agora outro desafio: estando aqui, procuro meus integrantes queridos que deixei em casa ou no passado. Imagino que quando estiver de volta, terei que fazer o mesmo com quem eu deixar aqui. É meu jeito de matar as saudades, ou de nem deixar ela se manifestar muito, e de dizer pra mim mesma que a distância não importa.

 

Para finalizar: me disseram esses dias que ‘saudadeS’, com ‘s’ no fim, não existe – e realmente, no dicionário, há apenas a palavra no singular. Nem ligo. Elas são minhas, são múltiplas, são várias e, para mim, estarão sempre no plural.

Escrito por Daddy às 11h02
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Querido vô João,

Você completa agora 80 anos. Digo ‘você’ porque eu sempre usei ‘você’, apesar de saber que para os mais velhos a gente deveria usar ‘o senhor’, ou ‘a senhora’, no caso da vó. Mas não sei quem errou nessa parte; se foi minha mãe que não nos obrigou a ser mais educadas, ou vocês que nunca exigiram esse tratamento. Ou talvez seja mais bonito admitir que o erro seja meu...

 

80 anos é muito, eu imagino. Estou com 31 e – Deus! – já passei por tantas coisas boas e ruins, tenho tantas lembranças, já tenho até falta de memória, então eu imagino o que são esses anos todos pra você, trabalhando tanto, vendo a família crescer, aprendendo com a dor, ensinando os filhos e netos a crescer, ainda que com a dor também, e tendo sempre a seu lado a mulher incrível, forte e muita mais brava do que você, que é minha vó. Sim, porque não me venha com essa de sangue italiano, não. Na hora da raiva, você grita e fica vermelho pra caramba, mas é coisa de minuto, todo mundo sabe que daqui a pouco sua risadinha já estará soando em algum canto da casa ou com os amigos na rua. Agora, a vó é brava de verdade; ela pode não explodir que nem você, mas ela pega firme. Ela é, sem dúvida, a grande mulher atrás de você, meu grande vovô homem.

 

Acho que isso tudo eu posso falar com conhecimento de causa, afinal passamos bons anos morando juntos, e plantando na cabeça de vocês os vários cabelos brancos que ainda carregam. Opa, correções: vários cabelos brancos que a vovó esconde com a pintura, porque os seus, desde que me conheço por gente, já eram brancos. E, tenho que dizer, nunca foram tantos assim, né? Pô, concorda, tô sendo sincera! Enfim, como fui também sua filha, posso dizer que te conheço um pouquinho.

 

Andaram me dizendo que você está com problemas sérios de audição. Bom, não sei se estão exagerando, pois no dia em que liguei na sua casa você me ouviu direitinho, e devo dizer que foi muito bom também ouvir você e a vovó. Emocionante, inclusive, ouvir o radinho de pilha narrando o jogo do Palmeiras ao fundo; parecia até uma montagem só pra me emocionar. Daqui, pude pintar a cena na minha cabeça.

 

Vovô, todos os aniversário são especiais, mas bem sabemos nós que chegar aos 80 anos não é fácil e menos comum. Por isso, devo dizer que essa alegria não é só sua, mas é de todos nós – é você quem está nos dando a alegria de celebrar tantos anos ao seu lado. Fico aqui imaginando como vamos comemorar os seus 100! Não sei dos seus ouvidos, mas sei que seus olhos já não te obedecem muito há alguns anos, então, enquanto escrevo, consigo até ouvir a voz do tio Márcio lendo tudo isso aqui pra você, com entonação de locutor de rádio. A propósito, a essa altura, ele já deve ter achado algum erro e comentado, ou corrigido. É tão bom pensar em tudo isso, é uma forma que encontro de estar aí com vocês estando tão longe.

 

Aí você vai dizer, não seja hipócrita, se você quisesse estar aqui, estaria, oras. Bem, querer estar na sua festa, nossa, como eu queria! Mas aí vou usar com você um argumento que aprendi com vocês, adultos, que me rodeavam: nem sempre dá pra gente ter tudo na vida. Então estou aqui, longe, em um lugar que amo, vivendo bem, mas morrendo de saudades de você e de todos, não duvide nunca disso.

 

Bem, vovô, termino aqui desejando que você aproveite bastante sua festa, coma como sempre, beba como sempre também (essas são outras cenas que consigo ver direitinho), e desejando que sua saúde se multiplique para que a gente comemore ainda muitos anos juntos. Quem sabe se no próximo ano eu não estarei aí? No dia em que nos falamos, você me disse que estaria me esperando. Então, me faça o favor de cumprir.

 

Com amor da sua neta,

Daddy



Escrito por Daddy às 08h56
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Pétala rosa

Uma pétala rosa

Voou

Numa manhã sisuda

De céu cinza, árvores não verdes

E frio azul.

E se prendeu no meu casaco ex-branco

Parou a minha pressa

Me fez sorrir amarelo

E não foi mais embora,

Apesar do vento teimoso

E forte e insistente.

A pétala rosa foi mais teimosa

Ficou ali

E coloriu o meu dia.



Escrito por Daddy às 15h25
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Receita de um almoço de domingo

Pô, comprei carne moída, tão raro aqui em Londres. Primeiro porque a carne que se acha nem sempre é boa, e segundo porque é geralmente cara.

Mas achei ontem no mercado uma boa e barata, então vamos lá. Resolvi cozinhar hoje, o que também é raro aqui em Londres ou em qualquer parte do mundo – eu resolver cozinhar.

Bom, tem que ter arroz pra acompanhar, não vou comer carne com carne. E posso colocar uns legumes no meio da carne. Ih, não, estão congelados. Talvez um ovo cozido seria bom! Carne moída refogada com ovo cozido e arroz! Eu gosto, perfeito! Só pra mim mesmo...

Piquei cebola e uns pedaços de bacon, acho que grandes demais, pra refogar a carne. Alho? Tem, mas fiquei com preguiça de descascar, e tem bacon, que é o que importa. Pra mim, o bacon é o rei de todos os temperos, se é que ele é um tempero. Começou a fritar tudo, joguei a carne. Ela ficou lá, refogando. Mexi de vez em quando pra ter certeza que toda ela seria refogada, e não apenas as privilegiadas que ficaram na parte debaixo da panela, deixando as coitadinhas de cima cruas. E sal, importante.

Arroz. Cozinhei só meio copo, que ainda acho que é muito (e depois veria que foi, mesmo). Mas acho que adicionei muita água. Pra dar um sabor diferente, joguei um tempero pronto que, na verdade, é feito pra cozinhar legumes, mas e daí? O tempero nunca vai saber se ele foi usado pra coisa certa, e vai agir da mesma forma.

Agora, faltava o ovo. Fácil: enchi a panelinha de água e imergi o ovo. Agora, oito minutos para ficar pronto, certo? Peraí, são oito minutos a partir do minuto em que ligo o fogo ou oito minutos depois que a água começa a ferver? Droga, por que não prestei atenção quando minha mãe me explicou essa parte? Bom, vou ver em que minuto ele começa a ferver e faço uma média.

Volto à carne. Agora, a aguaceira que se forma, sumiu, e tem é óleo pra caramba no fundo. Deve ser do bacon. Será que devo jogar água pra refogar mais? Ou refogar quer dizer isso mesmo, a comida agindo por si só? Resolvi não jogar água. Baixei o fogo e rezei pro raio do óleo secar. Bem, ele não secou. Os pedaços gigantes de bacon disputavam espaço com as coitadas das carninhas boiando em óleo.

Esse fogão aqui de casa é dose, porque é elétrico. Esquenta muito rápido, e nossas panelas são todas pequeninas. Olhei o arroz e estava grudando no fundo, só que em cima estava ainda cheio d’água. Reduzi o fogo, mas continuou queimando. Ok, arroz, você venceu: desligo o fogo, tampo a panela e deixo ele terminar se auto-cozinhando. Ficou meio amarronzado por conta do tal tempero para outros propósitos, mas deve ter ficado saboroso.

Putz, o ovo! Esqueci de ver em qual minuto ele começou a ferver. Resolvo, então, deixar o fogo por mais sete minutos, cabalisticamente, e desligar.

Desligo também a carne. Começo a descascar o ovo e estou indo bem até a terceira dedada que meto nele, e ele fura e a gema gentilmente escorre pelos meus dedos. Ficou mole. Isso quer dizer que ficou pouco tempo no fogo, não? Não sei...

Bom, o almoço está na mesa. Para a alegria de todas as pessoas do mundo, ninguém precisará provar dessa comida, só eu mesma. O menu é: sopa amarronzada de arroz, carne moída oleosa com bacons gigantes e ovo mole com sal. Comi tudo! Cozinhar dá uma fome...

E sabe o que foi melhor nesse incrível almoço de domingo? Ninguém reclamou da minha comida!



Escrito por Daddy às 14h36
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O enterro da menina

Tava na sala de casa quando vi a carroça, chiquérrima, cheia de balões e flores, puxada por cavalos fortes, enormes, brancos e cheios de pluma na cabeça, coitados!, estacionar em frente à igreja católica que fica do outro lado da rua. Já havia bastante gente na porta, a maioria negros (meu bairro é de negros) muito bem vestidos, e pensei que seria alguma missa comemorativa. Jamais imaginei que esperavam por uma carroça trazendo um pequeno caixão, no mais tradicional estilo inglês, ainda que isso pareça redundância.

 

A cena impressionava – parecia uma viagem ao tempo, ao século XVIII, talvez. O caixão não só era pequeno, como era cor-de-rosa, e a foto da pequena garota estava colocada em seu teto, em meio às inúmeras coroas de flores. Limusines e limusines acompanhavam, e foram todas se estacionando com calma na rua. Os carros no trânsito fizeram silêncio e aguardaram tranqüilamente que elas liberassem a passagem, e as pessoas à porta registravam tudo, com máquinas fotográficas e filmadoras. Estranho? Talvez pra gente. É como se aceitassem a morte com mais serenidade, e não quisessem perder ali a última oportunidade de registrar a presença da pequena menina em um evento familiar.

 

Bom, cena incrível, inesquecível, mas o tempo passava e eu precisava me organizar. Almoçar, primeiro. Na pressa, só tinha arroz, então me virei com atum e tomate, tá ótimo. Enquanto comia, assistia à retirada do caixão da carroça – provavelmente, iria começar o que chamam de ‘missa de corpo presente’. E todos seguiram para dentro da igreja; ficaram só os choferes das limusines esperando debaixo do sol ardente do verão londrino.

 

Bom, não posso esquecer nenhum documento. Extrato bancário meu, da minha mãe, cartas assinadas, diploma da escola, dinheiro, frio na barriga. É isso mesmo que devo fazer? Vai ser melhor pra mim? Agora não dá mais tempo de analisar, é como se tudo ocorresse na porrada, então vamos que o tempo tá passando. Vou hoje pedir ao governo para me deixar morar mais um tempo na Inglaterra. Hoje quero ficar, mas será que depois vou querer? Será que vou agüentar? E se voltar ao Brasil e me arrepender?

 

Termino de arrumar a bagunça de papéis espalhados na sala. Olho pela janela e os motoristas continuam fritando sob o sol – a missa deve prosseguir.

 

Ficar ou não? É o tipo de dúvida que se pode ter por meses, e que muito provavelmente nunca sabemos se tomamos a decisão correta. Por mais que tudo dê certo, como seria se não fosse assim? Qualquer decisão exige força, organização, investimento de tempo, dinheiro, energia e maturidade para agüentar as conseqüências. E quem disse que eu tô preparada pra isso? Deus, que medo! Mas agora a entrevista, para dar entrada na papelada, já me esperava.

 

Levo a louça suja para a cozinha e no trajeto de volta percebo que algumas pessoas começam a deixar a igreja. Abro a pasta de documentos e checo de novo: tá tudo ali. Na bolsa, chave, dinheiro, celular. Mais frio na barriga. Tá tarde, vou embora.

 

Ao chegar à rua, vejo o caixão sendo colocado de volta na carroça. A missa terminara. Ainda que meio atrasada, seria impossível eu não reduzir a velocidade para assistir à cena. Todos entram em seus carros, os choferes ligam os motores, mas são os cavalos que seguem à frente.

 

Dali, foram todos para o enterro da menina. De certa forma, eu também fui.



Escrito por Daddy às 16h48
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18 de março

de 2006

 

Acordei antes das 6 da manhã. Dormi umas cinco horas seguidas, pesado, e foi isso. Estou com medo, terrivelmente triste, ansiosa, muita coisa pra fazer, pra carregar.

Bom, o que consigo fazer sozinha, primeiro? Apenas o que tem totalmente a ver comigo. Então começo a empacotar meus CDs e a embalar meus instrumentos – sim, porque, por mais que eu os tenha organizado na minha casa com meu marido ou os tenha comprado com ele, música é algo familiar pra mim, é de raiz, é, digamos, ‘muito minha’. Então isso eu consigo fazer.

Desmonto minha bateria, embalo meu baixo e meu violão. CDs, super-importantes. São cerca de 600, coloco todos numa caixa. Sei cada um que tenho, sei o que tem em cada um, então não é difícil olhar para uma prateleira duas vezes maior e separar o que é meu. É como que fazer uma seleção natural para minha própria sobrevivência – preciso do que é meu para continuar.

CDs, baixo, violão, bateria. Ah, sim, DVDs. Que mais? Só. Só isso. Não tenho capacidade para recolher ou embalar mais nada. São 7h30 e preciso que minha irmã chegue para enfiar minhas roupas e minha escova de dentes na mala. Tirar roupas da gaveta dói demais, é o símbolo de separação, não gosto, não consigo, não planejei isso.

Minha irmã, para meu desespero, chega quase às 10h. Não sei dizer o que fiz nesse meio tempo. Tentei organizar e planejar coisas, mas não consegui tirar um fósforo do lugar, porque doía. Tinha medo de olhar para paredes, para cômodos, para os cachorros, porque sabia que sentiria saudades de tudo e de todos por muito tempo. Ao mesmo tempo em que queria registrar tudo com a tal ‘memória fotográfica’, queria poder não lembrar depois. É horrível quando o amor vira dor.

Minha irmã chegou, meus primos também. Todos foram rápidos, práticos, adoráveis, tentaram ser gentis e fazer piadas durante todo o dia. Me ajudaram muito, empacotaram tudo; em cinco horas minha vida estava embrulhada em plástico-bolha, espalhada em quatro carros.

Cinco da tarde e já não estava mais lá. Agora, era reunir forças para descarregar tudo dos carros, desembrulhar tudo, identificar o que deveria ficar onde na casa da minha mãe. Organizar, limpar, estruturar. Lugar a gente sempre acha, pra tudo. Só não achei mais lugar pra mim. Onze da noite e eu estava cercada de pacotes no meio da sala, sem saber se conseguiria guardar tudo, sem saber o que faria comigo mesma. Tristeza, frustração, insegurança, ansiedade, saudades. Um dos meus maiores medo, eu acho, era o de nunca mais dormir.

Depois disso, passei os seis meses seguintes dormindo menos do que quatro horas por noite. Caía no sono apenas quando não tinha mais energia para pensar ou agir; acordava sempre assustada, como que atrasada para a vida, coração disparado. Dormir era um erro.

 

de 2007

 

Ai, Deus, como queria dormir só mais um pouquinho! Tô moída, meus pés doem, minhas pernas eu nem sinto. Trabalhei 17 horas no dia anterior, não conseguia dormir de tanta agitação e cansaço, e agora tenho que acordar cedo pra começar tudo de novo – com a diferença de que hoje serão apenas nove horas de trabalho...

Loucura? É o que parece, mesmo. Festa é boa quando a gente se beneficia dela, e não quando a gente trabalha nela. No dia anterior foi celebrado o dia de St. Patrick, padroeiro da Irlanda. Não tenho idéia de quantas pints de Guiness eu tirei, no pub irlandês onde trabalhava Londres, para os outros beberem. Os europeus bebem muito mais do que nós, brasileiros, sonhamos, e muito mais coisas misturadas também. As pessoas foram à loucura: o bar ficou aberto por 14 horas com lotação esgotada e fila na porta. Muita dança, gritaria, cigarro, cigarro, cigarro. Correria, mais de dez pessoas trabalhando atrás de um balcão de bar estreito, copo que quebra, garrafa que voa. No fim do dia, havia todo o tipo de bebida na minha roupa. E agora, eu só estava acordando para mais um dia de comemorações.

Levantei rápido, antes que o corpo reclamasse, e fui embora. Agitação, música alta, uma dose, duas, oito pints, mais uma rodada, agacha, levanta, correria o tempo todo, acabou a vodka, alguém pode trazer mais?, mesma música tocando pela terceira vez no dia... Assim se passaram as nove horas, com muita loucura e até um pouco de diversão.

Não sei em que momento me dei conta de que aquele era um 18 de março. É claro que doeu, mas também foi um alívio. O dia passou e não senti, e aquela noite seria diferente. Ainda que surpresa por perceber como a vida pode mudar tanto e seu dia simplesmente ser totalmente diferente do que você já viveu ou mesmo planejou, não pude filosofar muito. Meu corpo tremia de cansaço e eu simplesmente dormi – e essa pareceu mesmo a coisa mais certa a fazer.



Escrito por Daddy às 17h18
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Juntos e separados

Estou aqui no meu retiro/fuga em Londres, passando por situações que nunca pensei, vendo coisas que nunca imaginei e descobrindo que a cidade não é tudo o que eu pensava, ou o que eu queria que ela fosse, e vamos concordar que seria estranho se não parasse para repensar ou analisar uma série de coisas.

 

Dentre as 320 atividades que arrumei pra mim, uma delas é um trabalho em um pub. É divertido e foi bom arrumar, porque foi algo que sempre falei que faria. Pronto, fiz – é legal, claro, mas é trabalhoso. Minhas mãos estão ferradas por causas dos produtos químicos para limpeza e ressecadas de bebidas que respingam o dia inteiro – quando, Deus!, eu ia imaginar que serviria tanta Guinness para os outros?!

 

Tenho sempre que chegar cedo, passar a roupa que vou usar e me trocar em uma sala minúscula e fedida, chamada de ‘staff room’, onde todo mundo se troca um na frente do outro e ninguém está nem aí – afinal, são europeus. Eu é que sou de fora. Aliás, fazendo um parêntese, trabalho com espanhol, francês, alemão, italiano, irlandês, polonês (muitos!) e um ou outro brasileiro. Os clientes? Bom, eu gosto de lidar com o público e não tive nenhum problema com eles – só às vezes é difícil entender o que estão falando. Como é um pub enorme bem no meio da cidade, tem gente do mundo inteiro, inclusive ingleses (!).

 

Sou um desastre. Sempre fui. Quebrar copo é rotina; o dia é bom mesmo quando derrubo uma garrafa inteira de uísque no chão, novinha. E é claro que isso sempre acontece bem em frente dos chefes. Nunca vou ser promovida, e sei que não me demitem porque dá trabalho pegar alguém ‘do zero’ e dar tanto treinamento (copo a 45º para tirar cerveja, dose dupla de bourbon tem desconto, não sirva menores, não permita que tragam bebida de fora ou saiam com a nossa e, por segurança, sempre peça para que tirem chapéu ou boné), enfim... Custa dinheiro também. Mas quem se importa – não quero ser chefe em pub mesmo... Só quero que ele pague minhas contas, por enquanto.

 

Quando saio direto da aula e vou pra lá, levo um lanche de casa que serve de almoço. Comer fora em Londres é muito caro – aliás, respirar em Londres é muito caro, não dá! Acordo mais cedo pra levar meu lanche na bolsa, e tenho exatos 10 minutos pra comê-lo entre o fim da aula e o começo do trabalho, porque tenho que passar minha roupa, me maquiar, ficar com cara de quem é feliz servindo bebida para os outros, ao invés de bebendo. E um dia desses, sonhei que estava atrasada, então não tinha tempo de fazer meu lanche. Entrei aflita numa cozinha bonitinha, pequena, atrasada, preocupada, e lá estava minha mãe, num clima de ‘calma, filha, tô fazendo seu lanche, não saia sem ele’. E quando eu olho pra mesa da cozinha – um balcão, na verdade (putz, ainda vou ter uma cozinha com balcão!) – lá está meu pai, lendo jornal com preguiça de fim de semana (que é quando mais trabalho mesmo) e rindo da minha pressa. Cena simples? Para mim, inimaginável. E eu acordei querendo que tudo isso fosse verdade. Sei que é ridículo uma pessoa de quase 30 anos ainda querer o papai e a mamãe por perto.

 

Acho que isso ocorre por alguns motivos: estou num lugar estranho, estou num momento estranho, sem me entender ainda. E por mais que faça terapia, me case com muita festa, me separe com muita dor, converse com os amigos, beba maravilhosas cervejas belgas, faça amizades ou não, tire novas músicas no violão, toque em pubs, telefone para o Brasil mais para ouvir a voz da família do que as novidades, corra o tempo todo contra o tempo porque estou sempre atrasada, ouça ‘A Primeira Lágrima’, do Renato e Seus Blue Caps  para nunca esquecer de onde vim, escreva para não enlouquecer, toque para não enlouquecer mais ainda, leia tirinhas do Cebolinha na internet, coma as porcarias que me dá vontade porque, afinal, tô trabalhando e correndo feito louca e mereço, tente responder todos os emails de amigos e nunca consiga porque chego sempre tarde nos cyber cafés, mas espero que eles acreditem o quanto gosto e considero eles, sorria sozinha dentro dos famosos ônibus de dois andares cruzando o Tâmisa, a caminho da escola, logo cedo, só porque começou a tocar no meu mp3 uma música que adoro em um belo e raro dia de sol... A verdade é que nunca vou superar a separação dos meus pais. Não estou dizendo que fizeram errado em se separar, porque não acredito nisso – acho mesmo que os dois viveram melhor as últimas décadas em suas novas vidas do que se tivessem vivido juntos. Só estou dizendo que não superei, só isso.

 

Lá no ‘staff room’, a pequena e fedida sala onde os mais de 60 funcionários se trocam de dia, à tarde, de madrugada, mantêm suas coisas espalhadas, sujas e misturadas, e passam suas roupas sempre atrasados, imaginando o que os espera no próximo turno ou se a grana vai dar para o aluguel, tem uma placa que diz: “Keep this place clean – your mother doesn’t work here” (“Mantenha este lugar limpo – sua mãe não trabalha aqui”). Só eu sei o que senti na primeira vez que entrei ali, insegura, meio perdida, ainda sem entender a sorte que dei de me contratarem, morrendo de medo de quebrar garrafas inteiras de uísque na frente do chefe ou de não entender o que os clientes ingleses de verdade iriam pedir... E de ver, por escrito, que: não, a minha mãe não vai estar lá, seja pra manter o lugar limpo, seja para preparar meu almoço quando eu estiver atrasada, seja apenas para estar.

 

Miss you both. Together and apart.



Escrito por Daddy às 09h27
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I'll be home for XMas

Priscila e Arão nasceram no Brasil. E por motivos diferentes e diversos, resolveram estar fora do País em determinado período de suas vidas.

 

Estar longe de casa e da terra natal pode ser surpreendente e mágico, proporcionar descobertas incríveis e provocar sentimentos inesperados – como a conclusão de que não há nenhum lugar no mundo melhor do que nossa casa, seja ela onde ou o que for.

 

Priscila foi passar uma temporada no Canadá e, inicialmente, voltaria antes do Natal. Mas participou de um concurso de redação por lá e ganhou uma bolsa – ela é ótima escritora e jornalista – e é claro que não dá pra recusar algo assim. Por isso, a passagem de dezembro foi transferida para fevereiro.

 

Já Arão se mudou há tempos para a Alemanha, e voltou para o Brasil no fim do ano apenas para ver a família. Acontece que o vôo de volta mais barato para a Europa era exatamente na noite de 24 de dezembro e, ainda que tenha visto seus familiares antes, passou a noite de Natal dentro do avião, revezando-se entre um sono torto e uma dose de alguma bebida alcoólica que a nem tão gentil aeromoça oferecia de vez em quando.

 

O Natal, assim como o aniversário de alguém, a Páscoa, o Ano Novo, o carnaval, a festa junina, os dias das Mães, dos Pais, dos Namorados e das Crianças, é uma mera convenção. Todos sabem disso. São formas de ressaltar determinados períodos do ano pra gente não sentir tanto o tempo passar. Ou, ao contrário, sentir que passa cada vez mais rápido. Acho que isso depende da idade que se tem, mas é outro assunto.

 

O fato é que Priscila e Arão não estavam em casa para o último Natal.

 

Priscila me escreveu contando que nunca pensou que isso pesaria. Foi convidada a assistir a um coral cantar em uma igreja e não conseguiu segurar o choro ao ouvir a singela “I’ll be home for XMas”. Arão me explicou que sua casa de verdade é na Alemanha. Mas foi exatamente no momento em que o avião decolou de Guarulhos que ele virou o rosto para a janela e, ainda que tentasse evitar, as lágrimas escorreram. Eu sei porque estava sentada na poltrona ao lado.

 

Tanto o Arão como a Priscila são adultos, bem resolvidos e sabem o que fazem por esse mundo afora. O que eles não sabiam apenas é que, de uma forma totalmente inexplicável, eles estavam em casa para o Natal. Eu sei porque eu também estava.



Escrito por Daddy às 14h33
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Carta ao Caio

Caio, querido, foi com tristeza que vi o desânimo com que comemorou seus 12 anos. Aliás, que não comemorou, porque não é possível alguém comemorar algo cabisbaixo e apagado do jeito que você estava. E, definitivamente, esse não é seu modo de ser.

Entendo que muita coisa chateie a gente. Nossa, e como! Uma das coisas que me chateiam, por exemplo, é a obrigatoriedade de estar feliz em certas datas, como no nosso aniversário. Ou no Natal, Ano Novo, Páscoa, Carnaval. Socorro! Por que é que a gente tem que estar feliz especificamente nesses dias?

Acredito que você terá, neste ano em que viverá seu 12º de vida, dias muito mais felizes e completos e divertidos do que aquele específico. Porque acho que a vida é assim mesmo, uma seqüência de dias muito legais, de outros nem tanto, de outros menos ainda e depois de outros dando sinais de que tudo pode e vai melhorar e, de repente, dias legais de novo!

Se eu pudesse, te dava de presente só dias legais. Mas não dá, não adianta, então o que posso fazer é desejar que todos sejam o mais divertido possível e, quando não forem, que você saiba aceitar a dor, deixar doer e levantar a cabeça pra correr atrás de um dia melhor. Porque você tem muita força e energia para isso. Ah, e inteligência também.

Se eu pudesse, outra coisa que faria seria te alertar pra uma porrada de acontecimentos. Mas isso eu sei que não adianta, os amigos já me avisaram - na verdade, deve ser minha imaturidade interferindo. Porque assim: por mais que eu fale aqui para não se importar com o que pensam ou falam de você, sempre acreditar que você é capaz de fazer o que quer, não ter medo de crescer, falar menos e ouvir mais (coisa que não faço até hoje), ser educado mas não levar desaforo pra casa, ler muito, ouvir a música que te faça bem, comer direito mas não deixar de aproveitar a vida por causa de dieta, aprender com seus erros, entender que coisas chatas e ruins vão acontecer e que elas fazem parte da nossa vida e tentar enxergar sempre o lado bom de qualquer situação, você só vai aprender vivendo isso tudo. E não que eu já tenha vivido cem anos, mas vou te dizer: é uma delícia descobrir cada uma dessas coisas. Dá trabalho, às vezes dá até vontade de desistir, mas quando você vê o quanto cada experiência te faz ser mais autêntico, tudo vale muito a pena.

A verdade é que o que parece impossível hoje vai ser bem mais tranqüilo amanhã, ou daqui a alguns anos, não importa. Quando tirei carta, dirigia com medo, e me lembro a tortura que era mudar de faixa quando não só eu, mas todos os carros à volta estavam em movimento - e cada um em sua própria velocidade! Caramba, como era possível mudar de faixa? Como as pessoas conseguiam?

E aí me surpreendi, na semana passada, já com dez anos de volante, cruzando três pistas de uma só vez porque descobri que precisava virar logo na próxima à esquerda, e estava totalmente à direita. Estava indo ao banco resolver problemas de dinheiro e não podia perder tempo. Soube direitinho onde dava para encaixar o carro ou não. Quando me lembrei do medo de mudar de pista, até ri sozinha, porque ele ficou tão pequeno perto do problema que me esperava no banco...

Mas sabe o que é deliciosamente mágico? É que porque eu enfrentei o medo do volante, pude ir ao banco dirigindo. Não importa quantos problemas e dificuldades vão aparecer na sua vida, seja no dia do seu aniversário ou não. Importa, sim, como você vai lidar com eles. E por mais que você não tenha hoje idéia do que estou falando, só queria dizer que tenho certeza de que você vai se dar muito bem.

Felicidades, Caio. Sempre.


Escrito por Daddy às 08h23
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Laranja arrogante

Tive um carro vermelho certa vez. Uma amiga alertou: essa cor é só pra carrão, não pra essa coisa que você teima em dirigir. Nem liguei, gosto de carro vermelho e decidi que meu popular 1.0 sem vidro elétrico, sem ar condicionado, sem trava elétrica e sem direção hidráulica seria vermelho. É, de fato, uma certa arrogância.

E aí o carro tomava sol, muito sol. Ficava em garagem descoberta dia e noite. Não deu seis meses e ele já não era mais vermelho; era um vermelho desbotado. Um amigo tirava sarro: "Seu carro é laranja!". Mas também, quem precisa de amigos?

Mas na minha arrogância de ter um carro vermelho, era preciso reconhecer: ele estava desbotando mesmo. E uns dois anos depois foi vendido assim, desbotado, um vermelho feio, sem vida, opaco. Ô corzinha feia que ficou!

E eis que descubro em viagem por Porto Alegre que os gaúchos escolheram o tal vermelho desbotado para pintar seus táxis. Então é um show de carro vermelho desbotado pela cidade, e é mesmo um vermelho diferente do usado nos automóveis vermelhos que por lá circulam. Sim, tive o cuidado de prestar atenção e reparar mesmo. É um vermelho menos vermelho, quase vermelho, um vermelho envergonhado.

Na verdade, um laranja arrogante.

Resolvi assim que o nome da cor que deve aparecer nos documentos dos táxis de lá é laranja arrogante. Não tem outra explicação. Um laranja arrogante é aquele que quer ser, tenta mesmo, mas não convence. Ele quer crescer e aparecer, até aparece, mas porque é feio. Ele passa vergonha e acha que está abafando. Veja bem: é diferente de um laranja esperançoso.

O laranja esperançoso, eu imagino, se assume como laranja, se escancara, mas corre atrás pra crescer, reconhece que é uma minoria - até porque é moda ser minoria - e não tem vergonha disso. E não desiste.

A diferença entre os dois é que o laranja arrogante vai passar a vida tentando ser e sentir o que o laranja esperançoso é e sente, e não vai conseguir chegar nem na metade. Ainda bem que vendi aquele carro.


Escrito por Daddy às 08h22
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Injeção

Bernardo tinha pavor de injeção. Quando criança, as vacinas eram sua grande bronca, e ele sabia o que o aguardava só de perceber que a mãe estacionava o carro na avenida da pediatra.

Fugiu três vezes. Na terceira, não deu; apanhou. Esperava a mãe se distrair falando com aquela recepcionista que cheirava a remédio e dava no pé; aos cinco anos, já alcançava a maçaneta, e disparava pelo jardim do consultório. Nessa terceira vez em que apanhou foi porque, além de ser a terceira vez - e a mãe já o tinha advertido nas outras duas -, ele ainda não se contentou em se esconder no jardim. Saiu pela Avenida Pompéia que nem um doidinho. Mãe e recepcionista cheirando a remédio correram atrás, e quando chegou a esquina, sem saber se atravessava a rua ou se virara e com medo de não lembrar mais o caminho de volta, acabou parando e foi alcançado.

Se era tão ruim assim? Se valia a pena fugir desse jeito por causa de uma injeção que duraria o que, dez segundos? Bernardo achava que sim. Nem tanto por causa dos dez segundos; eles iam acabar uma hora, certo? É. O problema era eles chegarem.

O pequeno Bernardo, ou Bernardinho já que esse também era o nome do pai, sofria por antecipação. Então era assim: só de ver a mãe conduzindo o carro pela avenida, ficava nervoso, suava frio, sentia medo, enjôo e vontade de chorar, e sua maior vontade era gritar pela mãe. Só que nesse caso, não adiantava; ela estava ao lado do inimigo.

Mas na verdade era isso: Bernardinho não agüentava a espera. Sabia que ia doer, e tudo o que queria era que acabasse logo, que o tempo voasse para ele ter a dor apenas como lembrança. Só que isso nunca acontecia, é claro. E então ele vivia momentos aterrorizantes antes da cena principal. Imaginar doía. Pensar em hipóteses doía. Entrar naquele consultório, olhar a devoradora escada de madeira esperando por sua subida e o sorriso diabólico da recepcionista que cheirava a remédio doía.

Ele sofria mesmo, de verdade. Sofria de um medo bem profundo, bem triste, um medo que fazia ele se sentir sozinho, sozinho. Mas não tinha muito jeito.

O tempo passou e Bernardinho sente saudades daquela época. A Avenida Pompéia parecia maior e era, de fato, mais limpa, cuidada. Ele cabia em pé no banco traseiro do carro da mãe. Depois que tomava injeção, depois de todo o sofrimento antecipado, geralmente ganhava um sorvete ou um doce de leite que vinha com brinquedo. Até a cara da recepcionista que cheirava a o que, mesmo?, parecia mais amigável quanto tudo acabava.

Mas o Bernardinho realmente sente falta é de sofrer antecipadamente por causa de uma injeção. Porque, hoje, ele continua a sofrer antecipadamente, só que por tudo. Ele não poderia imaginar que dez segundos de uma agulha era algo tão fácil de enfrentar.


Escrito por Daddy às 08h22
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